quinta-feira, 7 de outubro de 2010

*DAN- SER OR NOT DAN-SER

Gilbert Chaudanne,

Lançou vários livros entre

eles: A Passagem de Marina,

Critico de arte, pintor, escritor,

e geólogo.

2010

Numa recente exposição na antiga casa Cerqueira Lima, organizado pelo Instituto Quorum- Paulo Fernandes apresentou fotografias do seu trabalho de coreógrafo e de bailarino sobre o tema Mithos/Tècknè, e no dia da vernissage ( que incluía pinturas minhas sobre o mesmo tema), Paulo dançou ao redor de Yemanjá: uma montagem feita por ele. E Yemanjá estava lá, no meio da sala, grande, antiga, presente- imensamente brincando de azul celeste - esverdeado e branco cercado de filó, espalhado no chão em forma de circulo, o que lembra a roupa da noiva e a espuma do mar. Bodas marítimas?

Isto também remete á Vênus dos gregos que nasce da espuma do mar e não do mar liquido. Porque então essa espuma e não a água- em- si?

A espuma onde Paulo Fernandes dançou, nascendo dela de uma certa maneira ( o nascimento, a parturição, é um tema recorrente no trabalho de Paulo), e para o mar o que é a flor para a Terra, e aqui é mais significativo que isto aconteça no Estado do Espírito Santo que é o estado das orquídeas cujas pétalas brincam de fazer rendas como a espuma do mar( e com a prosa de Marcel Proust).

Mas a espuma, no seu estado de quase gazeificação corresponde as fases de alquimia e da psicologia junguiana a uma “evaporação” – espírito santo em relação ao ventre das origens que é o oceano e suas profundezas.

A espuma pode lembrar um pouco, o derramamento das lavas vulcânicas, e a baba que borbulha na do epiléptico.

Ora, o epilético tem haver com a percepção alucinada da divindade (Maomé, Dostoievski) e nas sociedades tradicionais, o epiléptico é respeitado como aquele que recebe o Divino.

Essa espuma do mar e do epiléptico pode ser a Saliva de Deus e sabendo como no judaísmo e no cristianismo; “No inicio estava o verbo”, aqui remete à boca – espuma- saliva e assim como a “alma”, o espírito desse verbo, Deus não criou o universo, Deus babou o universo e nós, representados por Fernandes, nós os humanos andamos e nadamos nessa baba divina. Andar e nadar não é bem o termo exato, porque para sustentar essa baba, há de dançar: como no candomblé, como no katakali,

E mais: a dança como espuma tem a marca da leveza epiléptica do Ser.

E isso é tanto que a montagem ao mesmo tempo é forte e delicada (em relação mar/espuma) como na sua maneira de dançar, de pensar o corpo, de ter um corpo pensante. E o pensamento do corpo é justamente a dança. Paulo tem uma maneira muito particular ou até singular de perceber a dança do Ser-em-si, e nele: parece está vasculhando o espaço através de um código gestual quase matematizado. E muito quer dizer- essa alta codificação- que a baba de Yemanjá não é a marca de um delírio patológico, mas algo que se refere ao “impensado”, ao impossível de ser pensado e que só pode ser apreendido pela participação do corpo ( e do corpo dançante). O que não quer dizer que o corpo é a nova instancia divina/ por excelência/ não/ o corpo pode ser considerado como uma espécie de “Código da Vinci”, um alfabeto meio segredo, que só pode ser lido por aqueles que entenderam que não se pensa só pela cabeça, pelo espírito. E Paulo Fernandes é dessa raça ontológica.

Ele sabe ficar num equilíbrio que se traduz pela dança e que consagra numa dança, algo como uma matemática: afinal o gesto do bailarino cria figuras geométricas, e essa geometria é a essência do Cosmos- eles, os gregos a chamavam de música das esferas.

E essa dança das esferas gregas, usa um certo minimalismo, um certo despojamento, uma nudez- sim- e ao mesmo tempo um lado barroco que se reflete na roupa “rica” de Yemanjá.

Curiosamente, mas respeitando as tradições dos orixás, o rosto de Yemanjá, é velado- o que quer dizer que não se pode ver o rosto divino- porque seu esplendor é tanto que pode se tornar insuportável, e pode se converter numa crueldade sem nome- que chamamos de loucura da “cegueira de toda visão”( Bhaghavad Gita e Gita de Raul Seixas).

Mas a surpresa aqui é não há nada atrás do véu, nenhum rosto, o rosto transcendental da Divindade é vazio. Mais delírio. Não.

Em muitas tradições espirituais (São João da Cruz, a Cabala), o Divino é noite, é vazio, é “algo que não é algo”, é um grande Nada (ou o desenho do Monte Carmelo de São João da Cruz). O bem conhece “Ser aquele que é”, é percebido, não como ser, mas como não ser. (houve toda uma linha de pensamento nesse sentido = a teologia negativa). Porque o ser divino não do mundo dos fenômenos, e paradoxalmente o Divino, que por excelência, é, é percebido na negatividade (presença/ausência da filosofia de Heidegger). Por isso que Paulo Fernandes parece, com seus gestos, procurar o “objeto” perdido, algo que se perdeu e que pode ser encontrado na arte, na dança.

Ele nada na baba divina para nos oferecer, e só vai receber essa baba quem soube segurar um cristal de neve entre os dentes.

E é o milagre: a neve, a espuma não desaparece. Mas para fazer isso, essa proeza ontológica, há de ter muita delicadeza, muita leveza, atributo passivo da dança.

A espuma não desaparece, ela, ao contrário, se eterniza. A montagem de Paulo e a dança de Paulo diz a cristalinilidade do Eterno Retorno.

O corpo volta de sua corporeidade fisiológica, sustentado pela baba cósmica, pela espuma do mar de Yemanjá e assim o corpo se torna algo que flutua, e que assim não se enraíza, não é associado à terra, mas ao mar e diz a metamorfose das formas e a espuma do mar de Vênus -Yemanjá- Oannes que diz toda a leveza e a cristalinidade de ser e do Ser, sua “flutuância” e seu efeito de flor- bouquet da consciência.

A possibilidade dançante do cristal, Paulo Fernandes dançando, reconstruindo seu corpo- como Antonin Artaud- não a partir dos orgãos, mas a partir da espuma, - uma espécie de arquitetura móvel do corpo: a dança – como metafísica do corpo em ação, um corpo que aprende a balbuciar seu próprio nome, além das palavras, na baba de uma epilepsia transcendental.

Adeus, René Descartes e teu corpo- máquina! Aqui o que se tem é algo como um espírito de corpo, algo que é assim enfiado como uma faca, mas que faz totalmente parte do corpo e que se manifesta, não pelo delírio – mas numa verdadeira matemática da carne e do sopro; uma espiritualidade corporal como na Índia.

O trabalho de Paulo Fernandes é isso: despojado. Nu e barroco, estranho e estranhamente familiar, ela fala do Ser, da transcendência embutida no gesto milimetrado.

Uma dança que remete as mais antigas tradições e por isso é plenamente atual é a eternidade.

*N. do autor - O titulo rever a expressão da palavra dançar do francês , dando um sentido polissêmico do Ser. Inclusive Dan é um personagem hebreu bíblico, filho da escrava Baláh, reconhecido como o guardião divino e, chamado de “arauto da justiça”.

Oannes- Deusa da mitologia assírio- babilônico, deusa das águas.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

domingo, 17 de maio de 2009

A DENSIDADE E O SILÊNCIO SOBEM AO PALCO

Roberto Soares

No seu penúltimo trabalho, “Anthropozoo” , Paulo Fernandes já fazia ao público propostas não muito freqüentes nos palcos de dança e teatro - e não somente aqui no Espírito Santo o freqüentes nos palcos de daçnNTO

- ao enveredar por linguagens e temas de atmosferas marcadamente míticas e cósmicas.

“Cosmogonos”, seu trabalho mais recente, apresentado agora em agosto, confirma a atração que o tema das origens das coisas e da vida exerce sobre o diretor e bailarino (cosmogonia: geração do cosmos, gênese das coisas e do tempo).

Não é tarefa fácil fazer no palco esse resgate do primitivo e do ancestral, que todos carregamos no corpo e na memória. A responsabilidade do artista, quando envereda por essas trilhas - infelizmente cada vez mais esquecidas, em nossa civilização abundante de almas de plástico, enfeitadas de bugigangas eletrônicas, a habitar dentro de assépticos condomínios, shoppings e carros último modelo - é a de conseguir, efetivamente, despertar em nós as ligações obscuras e intuitivas que temos como mundo, com as coisas e com o tempo.

Há que se ter um extremo cuidado para não inchar o trabalho com inúmeras referências e, aí, se perder num trãnsito deslumbrado entre as muitas visões cosmogõnicas (as diversas religiões, filosofias e sabedorias); e, também, para não cair na tentação do subjetivismo, das divagações pessoais – evitando impor ao espectador a sua visão pretensamente iluminada do que seja uma percepção profunda, uma relação adequada com a vida e com o ser. Enfim, é preciso se postar com maturidade e equilíbrio, pois quanto mais distantes estamos da origem mais temos o que falar e como falar sobre o assunto - que, álias, deveria ser um dos assuntos mais importantes de todo e qualquer civilização, esse tema de buscar uma relação profunda e reverente com aquilo que nos cerca.es de todo e qualquer civilizaço assunto- que,

Pois a tarefa de colocar esse assunto no palco vem consumindo as energias do diretor em seus últimos trabalhos, com o cuidado, a serenidade e a seriedade exigidas. Através de ágeis saltos no espaço, de movimentos rastejantes no chão, de uma quase completa imobilidade do corpo, de gestos geométricos com as mãos ou através de passos robotizados, Paulo Fernandes obstina-se em fazer com que os movimentos dos bailarinos nos ofereçam, por instantes que sejam, aquela atmosfera de densidade e estranheza, de admiração e espanto, que nos envolve ás vezes temos que testemunhar um pouco de mistério cósmico que nos acolhe.

Como que puxado por um poderoso imã, Fernandes vai atrás da tarefa de reconstruir para nós, agora através da arte, o precário e escorregadio desenho desses místicos instantes de testemunho da cosmogonia. E, na sua persistência e no seu rigor, o diretor aponta com precisão as trilhas, como que empurra o seu grupo de dançarinos para atrás no tempo, impondo a economia e a seriedade de gestos, enfim, exige dos movimentos dos intérpretes( ou da “forma” do espetáculo) aquela mesma concisão e reverência que o diretor consegue impor ao enredo( ou ao “ conteúdo” ) e de que falavámos acima. A ausência de concessões, a recusa ao caminho fácil, está presente até mesmo na trilha sonora: são sonoridades quentes, expressivas, com algo vindo das entranhas, distanciando no tempo e no espaço, nada de músicas conhecidas ou apenas agradáveis aos ouvidos.

Já quanto ao “conteúdo”, tanto em “Anthropozoo” quanto “Cosmogonos” não há propriamente um enredo. O que existem são episódios em aparência soltos, fragmentados, mas que se juntam numa articulação que, em última instância, dependerá da percepção do espectador- o que é comum no teatro de ensaio, de propostas mais conceituais ou filosóficas. O que não quer dizer que não haja, na concepção do diretor, uma seqüência, uma estruturação. No caso de “Cosmogonos”, através de oito episódios, o espetáculo começa literalmente pelo começo (um personagem mascarado, quase imóvel, representando o princípio criador) e vai até nossa era globalizada, na figura da dançarina de gestos mecanizados simbolizando nossa robotização consumista, ideológica e existencial.

Poder-se-ia dizer que as variantes imaginativas, bem articuladas entre os vários episódios do espetáculo – onde não se exige a mesma coerência e a continuidade de uma obra teatral ou literária. E na continuidade de sua longa trajetória, que a energia de Fernandes, o coroe com suas obras pelo impressionismo afro e original.

Mas aqui é também necessário lembrar que a proposta primeira de Paulo Fernandes não é dar colorido e sim densidade, não oferecer ao espectador sutilezas artísticas e sim provocar nele um resgate de si próprio, em meio ao cosmos em que ele está. Assim, que um eventual colorido da imaginação por parte do diretor não aconteça em detrimento do compromisso primeiro assumido por ele nesses trabalhos, que é o de fazer a arte despertar em nós, a percepção da transcendência, da silenciosa e fugitiva presença do ser á nossa volta – tarefa tão nobre e necessária para o artista quanto aos demais.

Ainda sobre os episódios, há que registrar a impressão de que o terceiro e o quarto bloco; o terceiro refere- se a um manto indígena que teria sido roubadoefere- selgaçcados do contexto, do "mido por ele nos e enviado á Europa, e o quarto é uma espécie de homenagem a um líder afrodescendente do séc. XIX. Ou seja, o diretor faz referências ás raízes afro-indígenas do povo brasileiro, expondo as vísceras da historicidade, trazendo á tona a identidade usurpada pelo despautério colonial. O tema proposto alinhava o tempo e espaço, reconstruindo a memória ancestral, sem que o espetáculo perca sua densidade mítica e cósmica.

Por outro lado, acontece algo interessante o episódio do manto de penas se insere na temática proposta: há a impressão de reverência a algum poder misterioso, quando vemos o indígena dançando em volta daquele objeto de rubra e etérea imobilidade. E tanto a reverência do índio quanto a desenvoltura do dançarino afro quebram a densidade metafísica do momento, só que num aspecto positivo ou desejável: lembram a nossa condição de corpo, a nossa animalidade, que se é extinguível e limitada é também prazerosa e dançarina, lembra que somos ao mesmo tempo morte e gozo, fome e êxtase. Não temos apenas que prestar contas ao mistério e ao obscuro princípio criador, temos também o direito e a obrigação de viver a nossa precariedade e abundância desta vida terrena.

Enfim, parece que Paulo Fernandes começa a inserir os contrapontos, as tensões, as dialéticas próprias de um enredo mais imaginativo, mais complexo, do qual falamos acima. O que não é nenhuma novidade e nem é desabonador, pois quando conseguimos de fato dar vida a um bom trabalho artístico, geralmente criamos algo maior do que nós próprios, mais amplo do que aquilo que nós próprios percebemos.

É sempre bem-vinda e necessária uma arte que não se ocupe apenas de dramas individuais, sociais, afetivos ou de questões estéticas, mas que, complementando essas outras abordagens, seja uma arte que se atreva assumir o seu parentesco com a religiosidade, a filosofia e o mito, uma arte que ouse nos lembrar que, ao ido dos muitos outros sentidos, o nosso sentido, aqui nesse espantoso mistério do ser, é também o de reverenciar, fundir- se, orar, relembrar, uma arte menos ocidental e mais universal, uma arte do sagrado.

Uma arte que ajude, a nós ocidentais, a evitar nosso quase definitivo esquecimento dos princípios e das origens, nosso medo dos silêncios, nossa fuga de tudo que proponha uma densidade interior própria. E que não também não celebre apenas uma fusão bêbada, carnavalesca ou dionisíaca, como se fôssemos todos bacantes á procura de uma anulação, de um esquecimento de nós mesmos. Uma arte que, embora resgate e celebre a origem comum, o faça de forma a não disfarçar a inescapável e insubstituível ponte que cada um de nós tem com o mistério das coisas, do tempo, das vidas e de si próprio. Uma arte que nos ofereça não apenas carnavalização, mas também a reverência ao mistério – nada contra o carnaval e as bacantes, claro, mas tudo a seu tempo e lugar.

Com esses dois trabalhos Paulo Fernandes assume a opção de tentar caminhar em direção a essa arte irreverente e reflexiva. Que o diretor e dançarino saiba perseverar na sua tarefa da dança o instrumento do simbólico e do mítico, do coletivo e do transcendente, que continue a trazer para o palco o silêncio e a densidade.

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domingo, 16 de novembro de 2008

Sessão Solene 20 de novembro -CONVITE

Nesta sessão solene será homenageado um dos nossos artistas da terra, Paulo Fernandes, o seu trabalho é reconhecido pela sua atuação no meio político representando a resistência étnico- racial e a importância da arte no processo de transformação social e educacional. "O trabalho de Paulo Fernandes se distingue e se explica como um ser inteiro, onde Cosmos, Terra e Cultura se integram, longe da pretensa razão que tem sido eficiente na interdição da Beleza. Imensuráveis sinais não estão inscritos no rol das "seguras referências" que adotamos para interpretar ou intervir no mundo. Há de se chegar mais perto.......
Marilda Teles Maracci
Geográfa-Vitória -ES
UNESP-UFF-UFES
Novembro de 2008

sexta-feira, 26 de outubro de 2007