*DAN- SER OR NOT DAN-SER
Gilbert Chaudanne,
Lançou vários livros entre
eles: A Passagem de Marina,
Critico de arte, pintor, escritor,
e geólogo.
2010
Numa recente exposição na antiga casa Cerqueira Lima, organizado pelo Instituto Quorum- Paulo Fernandes apresentou fotografias do seu trabalho de coreógrafo e de bailarino sobre o tema Mithos/Tècknè, e no dia da vernissage ( que incluía pinturas minhas sobre o mesmo tema), Paulo dançou ao redor de Yemanjá: uma montagem feita por ele. E Yemanjá estava lá, no meio da sala, grande, antiga, presente- imensamente brincando de azul celeste - esverdeado e branco cercado de filó, espalhado no chão em forma de circulo, o que lembra a roupa da noiva e a espuma do mar. Bodas marítimas?
Isto também remete á Vênus dos gregos que nasce da espuma do mar e não do mar liquido. Porque então essa espuma e não a água- em- si?
A espuma onde Paulo Fernandes dançou, nascendo dela de uma certa maneira ( o nascimento, a parturição, é um tema recorrente no trabalho de Paulo), e para o mar o que é a flor para a Terra, e aqui é mais significativo que isto aconteça no Estado do Espírito Santo que é o estado das orquídeas cujas pétalas brincam de fazer rendas como a espuma do mar( e com a prosa de Marcel Proust).
Mas a espuma, no seu estado de quase gazeificação corresponde as fases de alquimia e da psicologia junguiana a uma “evaporação” – espírito santo em relação ao ventre das origens que é o oceano e suas profundezas.
A espuma pode lembrar um pouco, o derramamento das lavas vulcânicas, e a baba que borbulha na do epiléptico.
Ora, o epilético tem haver com a percepção alucinada da divindade (Maomé, Dostoievski) e nas sociedades tradicionais, o epiléptico é respeitado como aquele que recebe o Divino.
Essa espuma do mar e do epiléptico pode ser a Saliva de Deus e sabendo como no judaísmo e no cristianismo; “No inicio estava o verbo”, aqui remete à boca – espuma- saliva e assim como a “alma”, o espírito desse verbo, Deus não criou o universo, Deus babou o universo e nós, representados por Fernandes, nós os humanos andamos e nadamos nessa baba divina. Andar e nadar não é bem o termo exato, porque para sustentar essa baba, há de dançar: como no candomblé, como no katakali,
E mais: a dança como espuma tem a marca da leveza epiléptica do Ser.
E isso é tanto que a montagem ao mesmo tempo é forte e delicada (em relação mar/espuma) como na sua maneira de dançar, de pensar o corpo, de ter um corpo pensante. E o pensamento do corpo é justamente a dança. Paulo tem uma maneira muito particular ou até singular de perceber a dança do Ser-em-si, e nele: parece está vasculhando o espaço através de um código gestual quase matematizado. E muito quer dizer- essa alta codificação- que a baba de Yemanjá não é a marca de um delírio patológico, mas algo que se refere ao “impensado”, ao impossível de ser pensado e que só pode ser apreendido pela participação do corpo ( e do corpo dançante). O que não quer dizer que o corpo é a nova instancia divina/ por excelência/ não/ o corpo pode ser considerado como uma espécie de “Código da Vinci”, um alfabeto meio segredo, que só pode ser lido por aqueles que entenderam que não se pensa só pela cabeça, pelo espírito. E Paulo Fernandes é dessa raça ontológica.
Ele sabe ficar num equilíbrio que se traduz pela dança e que consagra numa dança, algo como uma matemática: afinal o gesto do bailarino cria figuras geométricas, e essa geometria é a essência do Cosmos- eles, os gregos a chamavam de música das esferas.
E essa dança das esferas gregas, usa um certo minimalismo, um certo despojamento, uma nudez- sim- e ao mesmo tempo um lado barroco que se reflete na roupa “rica” de Yemanjá.
Curiosamente, mas respeitando as tradições dos orixás, o rosto de Yemanjá, é velado- o que quer dizer que não se pode ver o rosto divino- porque seu esplendor é tanto que pode se tornar insuportável, e pode se converter numa crueldade sem nome- que chamamos de loucura da “cegueira de toda visão”( Bhaghavad Gita e Gita de Raul Seixas).
Mas a surpresa aqui é não há nada atrás do véu, nenhum rosto, o rosto transcendental da Divindade é vazio. Mais delírio. Não.
Em muitas tradições espirituais (São João da Cruz, a Cabala), o Divino é noite, é vazio, é “algo que não é algo”, é um grande Nada (ou o desenho do Monte Carmelo de São João da Cruz). O bem conhece “Ser aquele que é”, é percebido, não como ser, mas como não ser. (houve toda uma linha de pensamento nesse sentido = a teologia negativa). Porque o ser divino não do mundo dos fenômenos, e paradoxalmente o Divino, que por excelência, é, é percebido na negatividade (presença/ausência da filosofia de Heidegger). Por isso que Paulo Fernandes parece, com seus gestos, procurar o “objeto” perdido, algo que se perdeu e que pode ser encontrado na arte, na dança.
Ele nada na baba divina para nos oferecer, e só vai receber essa baba quem soube segurar um cristal de neve entre os dentes.
E é o milagre: a neve, a espuma não desaparece. Mas para fazer isso, essa proeza ontológica, há de ter muita delicadeza, muita leveza, atributo passivo da dança.
A espuma não desaparece, ela, ao contrário, se eterniza. A montagem de Paulo e a dança de Paulo diz a cristalinilidade do Eterno Retorno.
O corpo volta de sua corporeidade fisiológica, sustentado pela baba cósmica, pela espuma do mar de Yemanjá e assim o corpo se torna algo que flutua, e que assim não se enraíza, não é associado à terra, mas ao mar e diz a metamorfose das formas e a espuma do mar de Vênus -Yemanjá- Oannes que diz toda a leveza e a cristalinidade de ser e do Ser, sua “flutuância” e seu efeito de flor- bouquet da consciência.
A possibilidade dançante do cristal, Paulo Fernandes dançando, reconstruindo seu corpo- como Antonin Artaud- não a partir dos orgãos, mas a partir da espuma, - uma espécie de arquitetura móvel do corpo: a dança – como metafísica do corpo em ação, um corpo que aprende a balbuciar seu próprio nome, além das palavras, na baba de uma epilepsia transcendental.
Adeus, René Descartes e teu corpo- máquina! Aqui o que se tem é algo como um espírito de corpo, algo que é assim enfiado como uma faca, mas que faz totalmente parte do corpo e que se manifesta, não pelo delírio – mas numa verdadeira matemática da carne e do sopro; uma espiritualidade corporal como na Índia.
O trabalho de Paulo Fernandes é isso: despojado. Nu e barroco, estranho e estranhamente familiar, ela fala do Ser, da transcendência embutida no gesto milimetrado.
Uma dança que remete as mais antigas tradições e por isso é plenamente atual é a eternidade.
*N. do autor - O titulo rever a expressão da palavra dançar do francês , dando um sentido polissêmico do Ser. Inclusive Dan é um personagem hebreu bíblico, filho da escrava Baláh, reconhecido como o guardião divino e, chamado de “arauto da justiça”.
Oannes- Deusa da mitologia assírio- babilônico, deusa das águas.

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