A DENSIDADE E O SILÊNCIO SOBEM AO PALCO
Roberto Soares
No seu penúltimo trabalho, “Anthropozoo” , Paulo Fernandes já fazia ao público propostas não muito freqüentes nos palcos de dança e teatro - e não somente aqui no Espírito Santo
- ao enveredar por linguagens e temas de atmosferas marcadamente míticas e cósmicas.
“Cosmogonos”, seu trabalho mais recente, apresentado agora em agosto, confirma a atração que o tema das origens das coisas e da vida exerce sobre o diretor e bailarino (cosmogonia: geração do cosmos, gênese das coisas e do tempo).
Não é tarefa fácil fazer no palco esse resgate do primitivo e do ancestral, que todos carregamos no corpo e na memória. A responsabilidade do artista, quando envereda por essas trilhas - infelizmente cada vez mais esquecidas, em nossa civilização abundante de almas de plástico, enfeitadas de bugigangas eletrônicas, a habitar dentro de assépticos condomínios, shoppings e carros último modelo - é a de conseguir, efetivamente, despertar em nós as ligações obscuras e intuitivas que temos como mundo, com as coisas e com o tempo.
Há que se ter um extremo cuidado para não inchar o trabalho com inúmeras referências e, aí, se perder num trãnsito deslumbrado entre as muitas visões cosmogõnicas (as diversas religiões, filosofias e sabedorias); e, também, para não cair na tentação do subjetivismo, das divagações pessoais – evitando impor ao espectador a sua visão pretensamente iluminada do que seja uma percepção profunda, uma relação adequada com a vida e com o ser. Enfim, é preciso se postar com maturidade e equilíbrio, pois quanto mais distantes estamos da origem mais temos o que falar e como falar sobre o assunto - que, álias, deveria ser um dos assuntos mais importantes de todo e qualquer civilização, esse tema de buscar uma relação profunda e reverente com aquilo que nos cerca.
Pois a tarefa de colocar esse assunto no palco vem consumindo as energias do diretor em seus últimos trabalhos, com o cuidado, a serenidade e a seriedade exigidas. Através de ágeis saltos no espaço, de movimentos rastejantes no chão, de uma quase completa imobilidade do corpo, de gestos geométricos com as mãos ou através de passos robotizados, Paulo Fernandes obstina-se em fazer com que os movimentos dos bailarinos nos ofereçam, por instantes que sejam, aquela atmosfera de densidade e estranheza, de admiração e espanto, que nos envolve ás vezes temos que testemunhar um pouco de mistério cósmico que nos acolhe.
Como que puxado por um poderoso imã, Fernandes vai atrás da tarefa de reconstruir para nós, agora através da arte, o precário e escorregadio desenho desses místicos instantes de testemunho da cosmogonia. E, na sua persistência e no seu rigor, o diretor aponta com precisão as trilhas, como que empurra o seu grupo de dançarinos para atrás no tempo, impondo a economia e a seriedade de gestos, enfim, exige dos movimentos dos intérpretes( ou da “forma” do espetáculo) aquela mesma concisão e reverência que o diretor consegue impor ao enredo( ou ao “ conteúdo” ) e de que falavámos acima. A ausência de concessões, a recusa ao caminho fácil, está presente até mesmo na trilha sonora: são sonoridades quentes, expressivas, com algo vindo das entranhas, distanciando no tempo e no espaço, nada de músicas conhecidas ou apenas agradáveis aos ouvidos.
Já quanto ao “conteúdo”, tanto em “Anthropozoo” quanto “Cosmogonos” não há propriamente um enredo. O que existem são episódios em aparência soltos, fragmentados, mas que se juntam numa articulação que, em última instância, dependerá da percepção do espectador- o que é comum no teatro de ensaio, de propostas mais conceituais ou filosóficas. O que não quer dizer que não haja, na concepção do diretor, uma seqüência, uma estruturação. No caso de “Cosmogonos”, através de oito episódios, o espetáculo começa literalmente pelo começo (um personagem mascarado, quase imóvel, representando o princípio criador) e vai até nossa era globalizada, na figura da dançarina de gestos mecanizados simbolizando nossa robotização consumista, ideológica e existencial.
Poder-se-ia dizer que as variantes imaginativas, bem articuladas entre os vários episódios do espetáculo – onde não se exige a mesma coerência e a continuidade de uma obra teatral ou literária. E na continuidade de sua longa trajetória, que a energia de Fernandes, o coroe com suas obras pelo impressionismo afro e original.
Mas aqui é também necessário lembrar que a proposta primeira de Paulo Fernandes não é dar colorido e sim densidade, não oferecer ao espectador sutilezas artísticas e sim provocar nele um resgate de si próprio, em meio ao cosmos em que ele está. Assim, que um eventual colorido da imaginação por parte do diretor não aconteça em detrimento do compromisso primeiro assumido por ele nesses trabalhos, que é o de fazer a arte despertar em nós, a percepção da transcendência, da silenciosa e fugitiva presença do ser á nossa volta – tarefa tão nobre e necessária para o artista quanto aos demais.
Ainda sobre os episódios, há que registrar a impressão de que o terceiro e o quarto bloco; o terceiro refere- se a um manto indígena que teria sido roubado e enviado á Europa, e o quarto é uma espécie de homenagem a um líder afrodescendente do séc. XIX. Ou seja, o diretor faz referências ás raízes afro-indígenas do povo brasileiro, expondo as vísceras da historicidade, trazendo á tona a identidade usurpada pelo despautério colonial. O tema proposto alinhava o tempo e espaço, reconstruindo a memória ancestral, sem que o espetáculo perca sua densidade mítica e cósmica.
Por outro lado, acontece algo interessante o episódio do manto de penas se insere na temática proposta: há a impressão de reverência a algum poder misterioso, quando vemos o indígena dançando em volta daquele objeto de rubra e etérea imobilidade. E tanto a reverência do índio quanto a desenvoltura do dançarino afro quebram a densidade metafísica do momento, só que num aspecto positivo ou desejável: lembram a nossa condição de corpo, a nossa animalidade, que se é extinguível e limitada é também prazerosa e dançarina, lembra que somos ao mesmo tempo morte e gozo, fome e êxtase. Não temos apenas que prestar contas ao mistério e ao obscuro princípio criador, temos também o direito e a obrigação de viver a nossa precariedade e abundância desta vida terrena.
Enfim, parece que Paulo Fernandes começa a inserir os contrapontos, as tensões, as dialéticas próprias de um enredo mais imaginativo, mais complexo, do qual falamos acima. O que não é nenhuma novidade e nem é desabonador, pois quando conseguimos de fato dar vida a um bom trabalho artístico, geralmente criamos algo maior do que nós próprios, mais amplo do que aquilo que nós próprios percebemos.
É sempre bem-vinda e necessária uma arte que não se ocupe apenas de dramas individuais, sociais, afetivos ou de questões estéticas, mas que, complementando essas outras abordagens, seja uma arte que se atreva assumir o seu parentesco com a religiosidade, a filosofia e o mito, uma arte que ouse nos lembrar que, ao ido dos muitos outros sentidos, o nosso sentido, aqui nesse espantoso mistério do ser, é também o de reverenciar, fundir- se, orar, relembrar, uma arte menos ocidental e mais universal, uma arte do sagrado.
Uma arte que ajude, a nós ocidentais, a evitar nosso quase definitivo esquecimento dos princípios e das origens, nosso medo dos silêncios, nossa fuga de tudo que proponha uma densidade interior própria. E que não também não celebre apenas uma fusão bêbada, carnavalesca ou dionisíaca, como se fôssemos todos bacantes á procura de uma anulação, de um esquecimento de nós mesmos. Uma arte que, embora resgate e celebre a origem comum, o faça de forma a não disfarçar a inescapável e insubstituível ponte que cada um de nós tem com o mistério das coisas, do tempo, das vidas e de si próprio. Uma arte que nos ofereça não apenas carnavalização, mas também a reverência ao mistério – nada contra o carnaval e as bacantes, claro, mas tudo a seu tempo e lugar.
Com esses dois trabalhos Paulo Fernandes assume a opção de tentar caminhar em direção a essa arte irreverente e reflexiva. Que o diretor e dançarino saiba perseverar na sua tarefa da dança o instrumento do simbólico e do mítico, do coletivo e do transcendente, que continue a trazer para o palco o silêncio e a densidade.
